domingo, junho 21, 2009

Átila, o NULO.

Era quase um ritual, começar a matutina labuta com aquele: - "O Xente o Pá!", com o qual Seu Vasco, o único português, magro e sem bigode, dono de botequim, torcia pro Fluminense e sua especialidade era feijoada, caldos e petiscos ao invés dos seus compadres gajos que adoram vender o tradicional pão francês. Enquanto meus companheiros de turma se aglomeravam em frente ao portão do Instituto de Educação, ousava a dividir espaço com os mestres que ali se encontravam pra discutir os problemas da nação, a amada seleção brasileira de futebol e o tamanho da saia das normalistas. O autêntico boteco, ornamentado com as tradicionais cores do tricolor carioca e uma bandeira azul e branca da inesquecível Terra dos Laranjais, sempre havia uma cadeira limpa e aconchegante para apreciar algum doce do vasto talento culinário da primeira dama do fabuloso, Princesinha de Maxambomba.

Sentava-me sempre às primeiras cadeiras para não perder a visão das maravilhas de saias azuis franzidas, terninhos brancos e pernas de fora. Não obstante, conheci Átila, relutante estudante daquela instituição, com seus cabelos negros, encaracolados e olhar intrigante. Engraçado por si só, pernas e braços longos demais, desproporcionais ao corpo, desajeitavam seu caminhar, o casamento do sem jeito com o desorientado. O nobre aluno, já estava há alguns anos ali, muitos anos, tipo muito. Controvérsia em pessoa, destacava-se pela astúcia e brilhantismo, a quase década como secundarista era incompreendida. Adorado como um filho pelos professores, ignorado pelos companheiros de turma, perseguido pelo seu arquiinimigo, o careca, gordinho, baixinho e dentuço, professor de História. Este Zinho não gosta do bar, não se misturava aos seus, muito menos nutria sentimento, seja de qual natureza for, por alunos, exceto Átila.
Começamos uma breve conversa sobre a eleição local e me impressionei por sua imparcialidade. Átila não tinha preferência alguma por coisa nenhuma, gostava ou não de tudo e ao mesmo tempo. Surge, então, o paradoxo quase quântico, era ele nulo porque era Átila ou era Átila porque era nulo; quase como significado aurélico a sua maior caracteristica, expunha seu voto nas eleições locais, onde todos partiam para o candidato único, o da reforma do Hospital Geral de Nova Iguaçu. Aos poucos, fui me entorpecendo com o conhecimento do novo amigo, uma Barsa ambulante e me revoltando com o sacrificante sistema. Este ente da sociedade capitalista que assola nossa sociedade baixadense carente de afagos governamentais, a prova. Avaliação quantitativa que não demonstra qualidade e sim quantidade, onde se treina a memória RAM e ignora-se que é o conjunto da obra que faz o artista. Meu grande amigo era inciso em suas opiniões e alcançava como uma águia, o que olhos comuns não lêem, as entrelinhas. Nas eleições presidenciais, enquanto os docentes azeitavam a garganta quando o candidato papagaio com cinco dedos na mão mostrava-se lider de pesquisa IPOBRE, o desajeitado, Nulo, afirmava que o candidato da oposição só alcançaria êxito quando trocasse de posição, ao invés de atacar, recuasse até a cabeça de área e começasse armar o jogo, distribuindo “pizza” para ambos os lados e assim, cadenciando a aceitação do governo quando um escândalo apertasse. Mesmo sem gostar de futebol, Átila mostrava desprendimento e um certo afair pelos corações brasileiros.
Férias escolares!!! Nossa amizade não entrou em recesso, uma vez por semana encontrávamos-nos, no Princesinha. Uma dupla de aventureiros, começamos a desbravar nossa cidade, a monárquica Iguassu Velha, explorávamos com fascínio as ruínas da histórica casa de pouso do imperador do Segundo Reinado, fazenda São Bernardo, e a antiga igrejinha, foi a primeira de muitas visitas, algumas acompanhadas, marcaram o fim da minha juvenidade. O melhor cenário para o despertar de um homem, embora tenha me intristecido pela timidez bloquear meu caro companheiro. Tantas descobertas. Vislumbrando a queda d’água do Poço das Cobras, o céu sobre centenas de conterrâneos, banhando-me, vestindo alegria, traçando a sorrateira caminhada em invasão a reserva protegida pelo IBAMA.
Tinguá, terra adorada, mas pouco a saciar nossa diversão. Certa vez, notei, incomum, inquietude em Átila. Subir o morro da caixa d’água, atravessar e - A cachoeira de Mesquita e além! Acompanhado, o Nulo, apesar da idade, inseguro, mostrou-se decidido a tomar partido de algo nessa vida, optou pelo coração, a bater de amores pela risonha morena sempre a nos acompanhar. Nervosismo e inexperiência abraçavam-no. Aquela situação era inusitada, jamais pensei o aconselhar sobre qualquer assunto, ainda mais sobre mulheres, afinal era mais juvenil. Tudo começou em cima da fria e cimentada caixa d’água. Estava perdido, sem começo, meio e fim. Meu jovem gafanhoto, mais confuso que o papagaio português que era gay e se chamava Isaac, haveria de agir, com paixão e determinação. Com todo esforço e motivação sobre suas qualidades, pude perceber, falta de cor em seu rosto, suor frio a pingar, tremedeira, assim, constatei, timidez crônica. Mas era Átila, sendo assim, não houve ação de natureza alguma. Entre inventar uma desculpa e sair de fininho com seu banquinho ou partir ao ataque, manteve a inércia.
Passaram semanas e por motivos aleatórios, as meninas não nos acompanharam no carnaval, Átila era boa companhia, aceitava qualquer passeio, sempre imparcial, nada era ruim ou bom o bastante para ser ou não feito. Curtimos as incríveis festas nas quadras da Leão, a maior escola de samba iguaçuana e também do glorioso Iguaçu Basket Clube e seu vazio baile a fantasia. Bebíamos o carnaval inteiro, a maioridade de meu amigo e minha mocidade, tornava a dupla imbatível. Naquele movimentado carnaval, apenas eu, após um espírito Dom juanico tomar minha faceta, experimentei o peso da fama do lendário, Casa Nova e a cada menina tomada em meus braços, ouvia quase como uma música, suas recitações; começo, meio e fim, desde o momento em que a vi sorrir, foi quando eu descobri a felicidade em si, ou ainda seus clamores parodiando uma canção do Raul; andando pelas ruas de Nova Iguaçu, eu quero encontrar alguém pra mim, um alguém tipo assim, que goste de beber, falar, um lugar e alguém que me tornarão mais feliz, um lugar onde as pessoas sejam loucas e super chapadas.
Em momento algum meu amigo, o Nulo, assim já o chamava, interessou-se por outra a não ser a bela morena de cabelos negros, fortes e encaracolados, e sorriso metálico. As aulas retornariam e a felicidade pairava por enfim alcançá-lo, estaríamos na mesma turma de formandos daquele ano. Há duas semanas não o via. Estava ansioso para adentrar o botequim de Seu Vasco e encontrar os amigos, professores e meu companheiro de descobertas juvenis. Demorei a identificar Átila, agora um Rasta Man com Dreds Looks e barba a fazer. Não entendi a revolta, mas não retruquei, afinal ele continuava o mesmo, breve, se aglomeravam aos poucos, buscando firmar amizade com o New Mam. Mas, algo valioso se afastou de nosso convívio e ficava reclusa, enquanto as tetéias que outrora lhe viravam o rosto, espreitavam o acompanhar. Tudo era por ela, após descobrir um gosto súbito de sua amada pela Jamaica music. Não posso esquecer-me da incrível batalha dos cem anos; travada em meio aos 40 alunos da classe 1003; todos atônitos à batalha naval do Riachuelo, nem mesmo os mais voltéricos ou aristotélicos ousaram palpitar no embate dos 300, afinal a degola era lei, na terra onde o cego tem um olho só. O senhor da História não aceitaria jamais a insolência de Átila com seus argumentos coesos, até que Átila tira da manga a cartada final, sobre a historia da fazenda Carmem e Ary que loteada tornou-se o incrível bairro Carmary, onde residia o temido professor de história. Naquele retórico momento, Napoleão literalmente caiu de quatro, perante o gélido inverno. Nunca presenciei mudo a um debate, só a esse. Átila comemorava sua entrada na faculdade de história, onde já teria sido aprovado quatro vezes, mas nunca obtia aprovação nessa matéria que tanto amava. Com a mesma insistência não se rendeu ao momentâneo sucesso das madeixas, a sempre esperar sua adorada. Ao fim estávamos como começamos, sós, embecados, cabelos cortados, poses de doutor pro álbum de formatura. Ao lado das normalistas, meros coadjuvantes, seres nulos.

2 comentários:

  1. Parabéns!
    Como se não bastasse o talento na arte de lecionar Física ainda és amigo das Letras.
    Quase um paradoxo!rs

    Espero por mais um de seus fabulosos contos.\o/ Escreva! =D

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  2. legal tio,gostei
    não sabia que o senor era escritor...

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