Victor Oliveira
Que dia! Uma caminhada vagarosa até Ô carro. Uma pick-up, cabine estendida, linda, preta, com DVD, aro cromado, banco de couro, ah! O cheiiiiiiro! Que cheiro! Uma maravilha! Dois minutos de contemplação total, até o DVD romper o silêncio, como a luz se espalha no vácuo, aliás, o som não, mas a Lês Paul, hum, me ajuda aeh! Transcende qualquer sugestão humana, a não ser do velho Page. O som rola solto e pesado, entre Stairway to Heaven e Smoke on the Water, a quarta e a quinta marcha. À velocidade da luz, avante. Que alívio, a pequena mansão, verde com os detalhes em branco e telhado vermelho, na estreita vila, onde as velhas senhoras já dormiam com suas agulhas e linhas de tricô. Uma pena!
Com todo carinho é dado o repouso na garagem. Boa Noite, Jim! Um olhar para fora e a dourada e bela lua cheia a encher-lhe de encanto, um sorriso, três pulsações e a chave na porta alva como seu olhar. A imensa sala, paredes verdes e teto branco combinando com a janela, uma poltrona, perfeita, reclinada, pés na mesinha de madeira de lei. Ah, os sapatos de couro Scarpati, melhor, a luz. Agora sim, o lindo sofá com pés de madeira e almofadas azuis como a poltrona e o céu de um belo domingo ensolarado, para descontrair em frente à bela estante, cheia de livros, um pequeno rádio e uma pequena TV, raramente ligada, e a maior foto 10x15 de todo o mundo. Um breve segundo, um sorriso e a felicidade eterna. Sim, a bolsa, volta até o carro e lembra, as flores. Meus Deus! Como esqueci, toma o desespero, liga o carro, nem o portão fecha e a porta? Só na volta. Ainda bem que o da vila é automático. Poucos segundos e já era, seu Lennon fecharia a floricultura, minha encomenda? - Obrigado, senhor! Volta pra casa, um chocolate pra aliviar a tensão. De novo, com cuidado o carro deixou, pelo menos a porta fechou. Arruma as flores belamente ao lado do retrato e sobe até o quarto de Gibson. O teto cheio de estrelas e planetas, a luz os desliga, a cama de solteiro ainda por fazer e um pequeno guarda-roupa cheio de pôsteres, toma a velha Fender, liga a zoom 8080, e...Ah! O amplificador. Ensaia alguns solos que Bruce aprenderia facilmente. Mas, Bruce Gibson nunca se interessou.
Nem conta do horário deu e a fome anunciou, desce até a cozinha abre a geladeira, alguns legumes, yogurte, queijo e presunto, água e uma lasanha velha e fria. Ah, escuridão, acende a luz, tem que trocar a lâmpada, abre o microondas e coloca a lasanha com muito queijo. Abre o armário pega a lâmpada, sobe no banco, pronto, que se faça luz. Pii! Pii! Pii! Está pelando! Queima o dedo. Garfo e faca à mão, entre uma mordida e outra, um pouco do doce bebida. Vai até o banheiro, hora do banho, toalha enrolada, pasta na escova e movimentos ortodontologicamente corretos. Um pouco de pasta no dedo. Um velho short, e uma camisa desbotada. Falta pouco pro grande momento, pega trabalhos dos alunos, entre uma correção e outra, uma carta anônima, mais uma aluna apaixonada. Um breve sorriso. A serena correção continua. Muitos trabalhos, mas falta pouco. Estão cada vez melhor. A bela esposa chega e o menino corre e abraça o pai. Com o jovem aos braços beija a esposa. São figurinhas que o menino tem à mão, uma a uma, é mostrada. Falta pouco para o álbum completar. Leva-o para o banho, logo após, o pijama e a correção nos cuidados dentais. São muitos detalhes, o aparelho requer muita atenção. Fio dental e escova especial. - Tem que escovar direitinho entre os aparelhos, queremos dentes fortes e saudáveis, retruca a mãe. Um beijo. - Boa noite, mãe! - Boa noite, pai! - Amamos você, bebe! - Ah, mãeee!!! Eu já tenho nove! Luz desligada, acende o céu, o menino suspira abraçando o boneco do Buzz Lightyear.
Música romântica, a esposa experimenta o vestido, parece que foi ontem. Cada vez mais linda, perfeita, brilhante, cintilante, sedutora. Os sapatos altos vislumbram. Maquilagem simples, quase imperceptível, a medida certa de gloss nos belos lábios, um beijo, um sorriso. – Assim, eu nem saio, querido! Pega a mão dela, ensaia um breve dança e lembra, o cartão e as entradas do cinema. Fecha a casa. Chega a vizinha com o ponto de cruz a mão. – Cadê o menino? Abre a porta. – Já está a dormir! Torna fechar. A calma senhora liga a TV e continua o ponto. Ah, a chave! Volta, pega a chave em cima da mesinha. Retorna. Abre o carro. Mão à esposa. – Mademoiselle! – Obrigado, cavalheiro! Ah, a chave! Entrega à paciente senhora. Enfim liga o carro. Simply Red no DVD. Muitas lembranças do primeiro encontro. Fecha o portão. Beijos e afagos. Acelera. Em cartaz, Um amor pra recordar, filme ideal. Pipoca e guaraná, beijos, muito carinho. Alegres e apaixonados saem do cinema extasiados.
No carro, ela quer saber a surpresa. O caminho pro novo restaurante da cidade é curto. - Ola, senhor! Uma pequena gorjeta pro garçom. A melhor mesa. O local brilhante, iluminado, a bela música ao vivo, os talheres dourados, toda a pompa ainda não alcança a imensidão da felicidade do casal. O saboroso salmão, uma taça do melhor champanhe francês da casa, e a música não pagam o brilho no olhar da amada. Á saída um eterno abraço, simples, porém imenso, conotou o momento. – Eu te amo, melhor pai, melhor marido! Sem palavras, as lágrimas escorrem pelos olhos da amada. Pega um pequeno lenço do bolso, as enxuga. Abre a porta do carro. Um braço à porta, outro segura a mão da esposa indicando o caminho. - Mulher mais amada! Ela senta e o beija a mão. Ele encosta a porta carinhosamente. No carro, a música do primeiro encontro, My girl - The Temptations. Beijos apaixonados. O primeiro, único e último amor. Retornando a casa, um desejo, um sorvete. Vão até a praça. – Quanto tempo, meu casal predileto! O mesmo de sempre? – Sim! – Então, dois napolitanos geladíssimos saindo! – Muito obrigado, Seu Roberto! – Esse é o Carlos, querido. – Desculpe, seu Carlos! – Tudo bem, sempre nos confundem! Um dia a esposa dele brigou comigo porque tinha esquecido a data do aniversário de casamento. Muitas risadas depois. O sorvete se acaba. Seu Carlos acena em despedida.
Na volta, a surpresa, o astronauta de mármore no banco traseiro, presente pro menino. Encanta-se com o fascínio da amada. Enquanto, era repleto de beijos. Em casa, a velha senhora cochila em frente a TV. Toma a velha senhora nos braços e a coloca no quarto de hóspedes. Um quarto simples, mas aconchegante. Liga o ventilador de teto, a cobre com uma manta azul com flores brancas, e nota o bordado “o amor é eterno” e encosta o pano ao lado, numa pequena cabeceira. Volta a suíte, em frente, a luz do banheiro, donde sua amada desfila a bela camisola, no tom certo, rosa. Apronta-se pra deitar. Sua bela amada segura sua mão e afaga seus cabelos. São beijos e carícias. Os corações em sintonia, mesma freqüência, na batida de Ray Charles, ressonando I Can’t Stop Loving You. Sussurando I Just Called to Say I Love You nem percebe sua amada adormecer. The First Time Ever I Saw Your Face e You Are So Beautiful se perdem nos cabelos da amada. Até o mesmo não se dar conta de que já era dia.
Um ousado raio solar, escapa entre a janela e a cortina de cetim azul rei. Seu olhar cola na gélida parede branca como a neve. Levanta e caminha até o banheiro, banho mormo, está muito frio, apesar do sol. O relógio marca sete em ponto. Respira fundo, e se arruma. Pega um terno desbotado tão quanto à calça. Ressalta o preto com uma blusa branca. Dá uma escovada de leve no já brilhante sapato e o combina com um cinto preto. A gravata de nó pronto é só colocar e puxar. Desce até a cozinha e prepara uns mistos-quentes, liga a chapa e prepara um suco de laranja. Enquanto a chapa esquenta, uma lágrima escorre, uma ardente e alegre lembrança da noite. Sobe ao quarto, pega a guitarra e toca uma canção, enquanto mastiga o sanduíche. Desce até a sala, pega as flores sobre a mesinha e beija o retrato. Vai até a porta e desliza suavemente a mão no contorno superior da porta e vai descendo pelo contorno lateral até a maçaneta. Coloca a chave na porta e gira até ouvir clack, a porta está aberta. A luz solar irrita seus olhos, está escaldante.
Uma irritação toma sua feição. A velha vizinha oferece-lhe um bom dia. Sua mente ataca “o que há de bom no dia, ele nem começou ainda, como pode o dia já ser bom”. Abre o carro bate a porta com força, coloca carinhosamente e com todo cuidado as flores ao lado do astronauta de mármore, depois a mão vai até o coração. O olho no retrovisor, as mãos ao volante. A ré, não há como esquecer. Nem fecha o portão, nada mais importa. Segue em frente. Muitas pessoas na rua. Há muita dificuldade de estacionar. Logo, se mistura a multidão, todos calados, algumas crianças cansadas pela caminhada rompem o silêncio. Mas logo são apartadas pelas mães. Muitos idosos aos prantos, mistura de sentimentos com o sol escaldante, desmaios, ainda há muito que caminhar.
Aos poucos a multidão se dispersa e se vê só, caminhando vagarosamente. Uma breve brisa toca seu rosto e sente um alívio, uma paz toma seu espírito. O cheiro é de terra molhada, tira os sapatos e as meias, aparece os pés que não vão a praia há muito. Sente a grama, os idos nem lembravam o gosto de caminharem livremente. Alcança a esperada construção, paredes verdes, detalhes em branco, telhado vermelho. Toma a chave do bolso. Recosta a testa à construção, pensa algo por instantes, o coração acelera, a boca seca, a respiração é ofegante. Abri a porta, recosta as flores ao lado direito e a imagem de mármore à esquerda. Poucos minutos, eternos segundos. Recosta-se entre os retângulos de concreto como quem os quisesse abraçar. Uma dor profunda corta seu corpo. Sem choro, sem pensamentos, sem indagações, só o momento, só o momento. No caminho de volta a pequena mansão só a lembrança, da inscrição “A Felisberto, todo amor que houver nessa vida”.
Que dia! Uma caminhada vagarosa até Ô carro. Uma pick-up, cabine estendida, linda, preta, com DVD, aro cromado, banco de couro, ah! O cheiiiiiiro! Que cheiro! Uma maravilha! Dois minutos de contemplação total, até o DVD romper o silêncio, como a luz se espalha no vácuo, aliás, o som não, mas a Lês Paul, hum, me ajuda aeh! Transcende qualquer sugestão humana, a não ser do velho Page. O som rola solto e pesado, entre Stairway to Heaven e Smoke on the Water, a quarta e a quinta marcha. À velocidade da luz, avante. Que alívio, a pequena mansão, verde com os detalhes em branco e telhado vermelho, na estreita vila, onde as velhas senhoras já dormiam com suas agulhas e linhas de tricô. Uma pena!
Com todo carinho é dado o repouso na garagem. Boa Noite, Jim! Um olhar para fora e a dourada e bela lua cheia a encher-lhe de encanto, um sorriso, três pulsações e a chave na porta alva como seu olhar. A imensa sala, paredes verdes e teto branco combinando com a janela, uma poltrona, perfeita, reclinada, pés na mesinha de madeira de lei. Ah, os sapatos de couro Scarpati, melhor, a luz. Agora sim, o lindo sofá com pés de madeira e almofadas azuis como a poltrona e o céu de um belo domingo ensolarado, para descontrair em frente à bela estante, cheia de livros, um pequeno rádio e uma pequena TV, raramente ligada, e a maior foto 10x15 de todo o mundo. Um breve segundo, um sorriso e a felicidade eterna. Sim, a bolsa, volta até o carro e lembra, as flores. Meus Deus! Como esqueci, toma o desespero, liga o carro, nem o portão fecha e a porta? Só na volta. Ainda bem que o da vila é automático. Poucos segundos e já era, seu Lennon fecharia a floricultura, minha encomenda? - Obrigado, senhor! Volta pra casa, um chocolate pra aliviar a tensão. De novo, com cuidado o carro deixou, pelo menos a porta fechou. Arruma as flores belamente ao lado do retrato e sobe até o quarto de Gibson. O teto cheio de estrelas e planetas, a luz os desliga, a cama de solteiro ainda por fazer e um pequeno guarda-roupa cheio de pôsteres, toma a velha Fender, liga a zoom 8080, e...Ah! O amplificador. Ensaia alguns solos que Bruce aprenderia facilmente. Mas, Bruce Gibson nunca se interessou.
Nem conta do horário deu e a fome anunciou, desce até a cozinha abre a geladeira, alguns legumes, yogurte, queijo e presunto, água e uma lasanha velha e fria. Ah, escuridão, acende a luz, tem que trocar a lâmpada, abre o microondas e coloca a lasanha com muito queijo. Abre o armário pega a lâmpada, sobe no banco, pronto, que se faça luz. Pii! Pii! Pii! Está pelando! Queima o dedo. Garfo e faca à mão, entre uma mordida e outra, um pouco do doce bebida. Vai até o banheiro, hora do banho, toalha enrolada, pasta na escova e movimentos ortodontologicamente corretos. Um pouco de pasta no dedo. Um velho short, e uma camisa desbotada. Falta pouco pro grande momento, pega trabalhos dos alunos, entre uma correção e outra, uma carta anônima, mais uma aluna apaixonada. Um breve sorriso. A serena correção continua. Muitos trabalhos, mas falta pouco. Estão cada vez melhor. A bela esposa chega e o menino corre e abraça o pai. Com o jovem aos braços beija a esposa. São figurinhas que o menino tem à mão, uma a uma, é mostrada. Falta pouco para o álbum completar. Leva-o para o banho, logo após, o pijama e a correção nos cuidados dentais. São muitos detalhes, o aparelho requer muita atenção. Fio dental e escova especial. - Tem que escovar direitinho entre os aparelhos, queremos dentes fortes e saudáveis, retruca a mãe. Um beijo. - Boa noite, mãe! - Boa noite, pai! - Amamos você, bebe! - Ah, mãeee!!! Eu já tenho nove! Luz desligada, acende o céu, o menino suspira abraçando o boneco do Buzz Lightyear.
Música romântica, a esposa experimenta o vestido, parece que foi ontem. Cada vez mais linda, perfeita, brilhante, cintilante, sedutora. Os sapatos altos vislumbram. Maquilagem simples, quase imperceptível, a medida certa de gloss nos belos lábios, um beijo, um sorriso. – Assim, eu nem saio, querido! Pega a mão dela, ensaia um breve dança e lembra, o cartão e as entradas do cinema. Fecha a casa. Chega a vizinha com o ponto de cruz a mão. – Cadê o menino? Abre a porta. – Já está a dormir! Torna fechar. A calma senhora liga a TV e continua o ponto. Ah, a chave! Volta, pega a chave em cima da mesinha. Retorna. Abre o carro. Mão à esposa. – Mademoiselle! – Obrigado, cavalheiro! Ah, a chave! Entrega à paciente senhora. Enfim liga o carro. Simply Red no DVD. Muitas lembranças do primeiro encontro. Fecha o portão. Beijos e afagos. Acelera. Em cartaz, Um amor pra recordar, filme ideal. Pipoca e guaraná, beijos, muito carinho. Alegres e apaixonados saem do cinema extasiados.
No carro, ela quer saber a surpresa. O caminho pro novo restaurante da cidade é curto. - Ola, senhor! Uma pequena gorjeta pro garçom. A melhor mesa. O local brilhante, iluminado, a bela música ao vivo, os talheres dourados, toda a pompa ainda não alcança a imensidão da felicidade do casal. O saboroso salmão, uma taça do melhor champanhe francês da casa, e a música não pagam o brilho no olhar da amada. Á saída um eterno abraço, simples, porém imenso, conotou o momento. – Eu te amo, melhor pai, melhor marido! Sem palavras, as lágrimas escorrem pelos olhos da amada. Pega um pequeno lenço do bolso, as enxuga. Abre a porta do carro. Um braço à porta, outro segura a mão da esposa indicando o caminho. - Mulher mais amada! Ela senta e o beija a mão. Ele encosta a porta carinhosamente. No carro, a música do primeiro encontro, My girl - The Temptations. Beijos apaixonados. O primeiro, único e último amor. Retornando a casa, um desejo, um sorvete. Vão até a praça. – Quanto tempo, meu casal predileto! O mesmo de sempre? – Sim! – Então, dois napolitanos geladíssimos saindo! – Muito obrigado, Seu Roberto! – Esse é o Carlos, querido. – Desculpe, seu Carlos! – Tudo bem, sempre nos confundem! Um dia a esposa dele brigou comigo porque tinha esquecido a data do aniversário de casamento. Muitas risadas depois. O sorvete se acaba. Seu Carlos acena em despedida.
Na volta, a surpresa, o astronauta de mármore no banco traseiro, presente pro menino. Encanta-se com o fascínio da amada. Enquanto, era repleto de beijos. Em casa, a velha senhora cochila em frente a TV. Toma a velha senhora nos braços e a coloca no quarto de hóspedes. Um quarto simples, mas aconchegante. Liga o ventilador de teto, a cobre com uma manta azul com flores brancas, e nota o bordado “o amor é eterno” e encosta o pano ao lado, numa pequena cabeceira. Volta a suíte, em frente, a luz do banheiro, donde sua amada desfila a bela camisola, no tom certo, rosa. Apronta-se pra deitar. Sua bela amada segura sua mão e afaga seus cabelos. São beijos e carícias. Os corações em sintonia, mesma freqüência, na batida de Ray Charles, ressonando I Can’t Stop Loving You. Sussurando I Just Called to Say I Love You nem percebe sua amada adormecer. The First Time Ever I Saw Your Face e You Are So Beautiful se perdem nos cabelos da amada. Até o mesmo não se dar conta de que já era dia.
Um ousado raio solar, escapa entre a janela e a cortina de cetim azul rei. Seu olhar cola na gélida parede branca como a neve. Levanta e caminha até o banheiro, banho mormo, está muito frio, apesar do sol. O relógio marca sete em ponto. Respira fundo, e se arruma. Pega um terno desbotado tão quanto à calça. Ressalta o preto com uma blusa branca. Dá uma escovada de leve no já brilhante sapato e o combina com um cinto preto. A gravata de nó pronto é só colocar e puxar. Desce até a cozinha e prepara uns mistos-quentes, liga a chapa e prepara um suco de laranja. Enquanto a chapa esquenta, uma lágrima escorre, uma ardente e alegre lembrança da noite. Sobe ao quarto, pega a guitarra e toca uma canção, enquanto mastiga o sanduíche. Desce até a sala, pega as flores sobre a mesinha e beija o retrato. Vai até a porta e desliza suavemente a mão no contorno superior da porta e vai descendo pelo contorno lateral até a maçaneta. Coloca a chave na porta e gira até ouvir clack, a porta está aberta. A luz solar irrita seus olhos, está escaldante.
Uma irritação toma sua feição. A velha vizinha oferece-lhe um bom dia. Sua mente ataca “o que há de bom no dia, ele nem começou ainda, como pode o dia já ser bom”. Abre o carro bate a porta com força, coloca carinhosamente e com todo cuidado as flores ao lado do astronauta de mármore, depois a mão vai até o coração. O olho no retrovisor, as mãos ao volante. A ré, não há como esquecer. Nem fecha o portão, nada mais importa. Segue em frente. Muitas pessoas na rua. Há muita dificuldade de estacionar. Logo, se mistura a multidão, todos calados, algumas crianças cansadas pela caminhada rompem o silêncio. Mas logo são apartadas pelas mães. Muitos idosos aos prantos, mistura de sentimentos com o sol escaldante, desmaios, ainda há muito que caminhar.
Aos poucos a multidão se dispersa e se vê só, caminhando vagarosamente. Uma breve brisa toca seu rosto e sente um alívio, uma paz toma seu espírito. O cheiro é de terra molhada, tira os sapatos e as meias, aparece os pés que não vão a praia há muito. Sente a grama, os idos nem lembravam o gosto de caminharem livremente. Alcança a esperada construção, paredes verdes, detalhes em branco, telhado vermelho. Toma a chave do bolso. Recosta a testa à construção, pensa algo por instantes, o coração acelera, a boca seca, a respiração é ofegante. Abri a porta, recosta as flores ao lado direito e a imagem de mármore à esquerda. Poucos minutos, eternos segundos. Recosta-se entre os retângulos de concreto como quem os quisesse abraçar. Uma dor profunda corta seu corpo. Sem choro, sem pensamentos, sem indagações, só o momento, só o momento. No caminho de volta a pequena mansão só a lembrança, da inscrição “A Felisberto, todo amor que houver nessa vida”.
Primeiríssimo comentário... q honra heim... rsrs
ResponderExcluirVictor parabéns por td isso... mt sorte na sua caminhada e mt inspiração para tantos outros contos... adoro vc escritor ;)
quando vi o anuncio do blog no teu orkut não resisti... vc escreve muito bem, amigo! js
ResponderExcluirEste comentário foi removido por um administrador do blog.
ResponderExcluirAcho q já li esse conto duas vezes, mas não canso. Ele é maravilhoso. Adoro suas palavras e o jeito como arruma os fatos.
ResponderExcluirA citação do filme é perfeita, sou fã dele. o romântismo é espetacular. Faz-nos viajar.
Ah, acho q já disse quase tdo aqui, só queria q soubesse q te desejo tdo d bom. Parabéns!
beiijos ;]
Simplismente maravilhoso...bem, quando te conheci não sabia que além de físico era escritor meu caro colega de trabalho, hoje sabendo um pouco mais de ti, através do Átila, e agora lendo A Felisberto,percebo o grande talento e a facilidade que tens para lidar com as letras...parabéns e sucesso!!!!
ResponderExcluirNossa vc tá d parabéns a cada dia descubro um pouquinho d vc. Vc escreve muito bem, e esse conto é simplismente perfeito. te adoro bjos
ResponderExcluirViH
a cada dia descubro mas uma qualidade sua parabéns resumindo é simplesmente perfeito igual a vc!
ResponderExcluirbeijos...